Não há hierarquia de opressão. Audre Lorde

Não há hierarquia de opressão

[do capítulo “Diferença e Sobrevivência” do livro “Eu sou sua irmã. Escritos coletados e não-publicados de Audre Lorde”. Editado por Rudolph P. Byrd, Johnnetta Betsch Cole e Beverly Guy Shef-Tall. Oxford University Press, 2009]

Eu nasci negra e uma mulher. Eu estou tentando ser a pessoa mais forte a qual eu posso me tornar, para viver a vida que me foi dada e ajudar a efetivar a mudança em direção à um futuro habitável para essa terra e para minhas crianças. Como uma mãe de dois, incluindo um menino, Negra, lésbica, feminista, socialista, poeta e membro de um casal interracial eu frequentemente me encontro parte de algum grupo onde a maioria me define como desviante1, depravada, difícil, inferior ou simplesmente “errada”.

A partir da minha participação em todos esses grupos eu aprendi que opressão e intolerância em relação à diferença vem em todos os tamanhos e formas e cores e sexualidades; e entre aqueles de nós que compartilham dos objetivos de liberação e um futuro possível para nossas crianças, não pode haver hierarquias de opressão. Eu aprendi que ambos sexismo (a crença em uma superioridade inerente de um sexo sobre todos os outros e, logo, o seu poder em dominar) e heterosexismo (a crença em uma superioridade inerente em um padrão de amar sobre todos os outros e, logo, o seu poder em dominar) se originam da mesma fonte que o racismo – a crença superioridade inerente de uma raça sobre todas as outras e, logo, o seu direito em dominar.

“Ah,” diz uma voz da comunidade Negra, “mas, ser negro é NORMAL!”. Bom, eu e muitas pessoas Negras da minha idade podem se lembrar duramente dos dias em que não costumava ser!

Eu simplesmente não posso acreditar que um aspecto de mim mesma pode de alguma forma lucrar com a opressão de qualquer outra parte de minha identidade. Eu sei que meu povo não pode de nenhuma forma lucrar com a opressão de qualquer outro grupo que procura o direito à existência pacífica. Em vez disso nós nos diminuímos através da negação para os outros do que temos derramado de sangue para obter para nossas crianças. E aquelas crianças precisam aprender que elas não tem que se tornar umas iguais às outras para trabalharem juntas para um futuro que todas elas compartilharão.

Os ataques crescentes contra lésbicas e homens gays são apenas um introdução aos crescentes ataques contra pessoas Negras, porque onde quer que a opressão se manifeste neste país, pessoas Negras são vítimas em potencial. E é um padrão do cinismo da direita o encorajamento de membros de grupos oprimidos que ajam contra si mesmos, e enquanto estivermos divididos nós não poderemos nos unir conjuntamente em uma ação política efetiva.

Dentro da comunidade lésbica eu sou Negra e dentro da comunidade Negra eu sou uma lésbica. Qualquer ataque contra pessoas Negras é uma questão lésbica e gay, porque eu e outras milhares de mulheres Negras são parte da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é uma questão Negra porque milhares de lésbicas e homens gays são Negros. Não há hierarquia de opressão.

Não é acidental que o Ato de Proteção da Família2 [Family Protection Act] que é virulentemente antimulher e antinegro também seja antigay. Como uma pessoa Negra eu sei quem são meus inimigos e quando a Ku Klux Klan vai ao tribunal em Detroit para tentar e forçar a secretaria de educação a remover livros que o clã [Klan] acredita que “faz alusão3 à homosexualidade”, então eu sei que não posso me dar ao luxo de combater apenas uma forma de opressão. Eu não posso me permitir acreditar que liberta-se da intolerância é o direito de apenas um grupo em específico. E eu não posso me permitir escolher entre as linhas de frente nas quais devo combater essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecerem para me destruir, não será muito antes de elas aparecerem para destruir você.

Tradução livre por Daniela Alvares Beskow (2016)

1N do T. (Nota da tradução). Em alguns contextos, desviante (“deviant”) pode ser traduzido como “depravado (a)”.

2Uma lei [algumas traduções propõe “projeto de lei” para a palavra “bill”, traduzida como “lei” acima] de 1981 rejeitando leis federais que promoviam direitos iguais para mulheres, incluindo atividades coeducacionais relacionadas à escola e proteção para esposas espancadas e provendo incentivos fiscais para mulheres casadas para ficar em casa.

3N do T. (Nota da tradução). Também traduzido como “aponta para”, “sugere”.