A importância da disponibilidade

naA disponibilidade para o outro, para a outra, para a realidade, é um dos elementos chave da política. Política se constrói através do diálogo e apenas ocorre diálogo quando se está disposta a ouvir, entender e conhecer as ideias alheias, se empenhando na construção de ideias propostas por várias pessoas, não apenas na própria ideia. E também se empenhar na construção de ideias conjuntas, oriundas do encontro entre as diferentes ideias, gerando uma nova.

Estar disponível para o mundo é desenvolver a vontade e a intenção de conectar pontos em uma rede. Independente de querermos ou não, já vivemos em rede. Essa é a definição de sociedade, a vida em rede, conectada. Existem casos de pessoas que vivem completamente isoladas da sociedade, elas existem, mas, no geral, a maioria das pessoas vive em sociedade. Ainda que não queiram, dependem umas das outras. Ainda que uma pessoa na sociedade more sozinha, ela ainda vai precisar de outras pessoas que plantem para que ela compre sua comida, pessoas que realizem a manutenção da rede elétrica para que ela tenha energia em sua casa, pessoas que produzam roupas para que ela se vista e assim por diante. Infelizmente o sistema de produção desses objetos e serviços, que é o sistema capitalista, não é um sistema justo. Estamos imersos nessa rede da exploração, da desigualdade, do sofrimento. Outras redes também produzem violência e sofrimento, como o patriarcado, o racismo e a heteronormatividade. São todas redes não apenas materiais, mas, também simbólicas e produtoras de cultura. O tempo passa, algumas estruturas são alteradas, outras são mantidas, com algumas arestas sendo moldadas, refeitas, mas, se fortalecendo em cada sociedade que passa. Sendo assim, é importante que nos empenhemos na transformação dessas estruturas para que a possibilidade de um mundo sem violência se torne concreta. Para que possamos tecer redes que levem à satisfação material para todas/os, à felicidade, à tranquilidade, à alegria e abundância.

Pensando a nível micro, nos pequenos coletivos, a disponibilidade individual é um elemento importante para que seja construída a colaboração. Colaborar facilita a vida coletiva, pois, a maioria dos serviços e objetos de que precisamos, funcionam melhor quando construídos para funcionamento em larga escala. Não faria sentido construir uma estação de energia individual, ou uma fábrica individual de alimentos. É mais viável construir grandes estruturas que gerem energia e alimentos para uma grande quantidade de pessoas, pois, dessa forma, se economiza esforços e material de construção. Esse exemplo se aplica na maioria das profissões. Além disso a soma das diferentes ideias presentes em um coletivo, gera melhores soluções, pois, dificilmente uma só pessoa vai ter todas as respostas para um problema. O aprendizado conjunto é mais frutífero, uma pessoa estimula a outra a pensar mais e de forma mais complexa.

A disponibilidade para o imprevisível é melhor aproveitada quando se prepara o corpo – vemos aqui um elemento de planejamento. Um corpo forte, tranquilo, com várias possibilidades de respostas. Um corpo flexível, que se adapta, mas, que também propõe e conhece bem o seu eixo. A disponibilidade também é uma estratégia de sobrevivência.

Para que o corpo não seja afetado de forma negativa em situações de acaso e disponibilidade é preciso que ele esteja preparado, ou seja, que haja várias cartas na manga que possam ser utilizadas em função das diferentes situações. É preciso não apenas uma expectativa em situações de disponibilidade, mas, várias possíveis, que podem ser acessadas quando necessário.

Expectativa e acaso, neste sentido, existem de forma relacional.

Ou seja, há uma diferença entre a disponibilidade absoluta e a disponibilidade a partir de um corpo preparado que se relaciona com outro corpo/pessoa respeitosa. Não se deve abusar da disponibilidade das pessoas e nem se entregar por completo de forma irresponsável à situações sob as quais não se tem nenhum controle. Atualmente o capitalismo-patriarcado estimula que as pessoas, mas, em especial as mulheres, vivam sem expectativas, “se joguem”, não sejam preocupadas. Se classifica mulheres que planejam e se preocupam como controladoras. Bom, há um diferença entre esses dois estados. Como apontado no texto “A importância da expectativa”, é importante que nós mulheres desenvolvamos estratégia e planejamento, não ficando assim, à mercê dos controle que os homens insistem em exercer sobre nós. Traçar uma estratégia não é sinônimo de controle excessivo. Controle excessivo está no terreno do abuso, da violência sobre o outro ou sobre a insegurança extrema sobre si, que em uma tentativa aumentada de proteção, tenta controlar todos os fatores que geram situações futuras. É preciso atentar para administrar esses fatores. Por outro lado, se jogar no escuro sem nenhuma informação sobre o que está por vir, nenhuma estratégia em mente, nenhuma rede de segurança para emergências, nenhum objetivo ou plano para o futuro próximo ou distante, enfim, apenas “se jogar” nas situações nada mais é do que reforçar o papel de gênero da feminilidade, construída pelo patriarcado: estar completamente disponível ao mundo, menos à si mesma. Estar completamente disponível aos homens, aos filhos, à sociedade que explora. Homens querem mulheres completamente disponíveis para continuar violentado-as. Não. Não será assim.

A disponibilidade que gera vida e não morte é aquela que soma dois ou mais indivíduos em ideias e práticas benéficas a partir do respeito mútuo. Ampliando as pessoas para além de suas mentes-mundos próprios, fortalecendo a diversidade e a criatividade. Apontando para o horizonte, com um pé no presente e outro no passado. Corpos e pessoas íntegras, atentas e ao mesmo tempo tranquilas, animadas para o que está por vir e que sabem a hora de se recolher e se cuidar. Estar disponível para o mundo é perceber o que nos circunda, é também estratégia de proteção e sobrevivência. Estar disponível para o mundo é estar disponível para a vida, é não insistir em estratégias que não dão certo ou que poderiam ser melhores, é ser receptiva para outras ideias e ao mesmo tempo, propositiva, é perceber os limites e as possibilidade mútuas de expansão entre si e o mundo. É trabalhar a flexibilidade concomitante ao eixo. Nem muito rígida a ponto de quebrar, nem muto flexível a ponto de arrebentar.

O equilíbrio entre planejamento e disponibilidade vai então balisando a construção de vidas individuais e sociais, rumo à um mundo melhor.

Daniela Alvares Beskow

31 de dezembro de 2019

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