Entrevista com Priscilla Leal do Las Abuelitas

Las Abuelitas. Site de divulgação dos trabalhos de mulheres artistas

Produzido por Priscilla Leal.Atriz, advogada e gestora cultural.

www.lasabuelitas.com
www.facebook.com/LasAbuelitas

– O que é o site Las Abuelitas?

O site Las Abuelitas é um espaço para reunir, informar e divulgar a  mulher artista. Gosto de pensá-lo como um co-working virtual onde  expressamos nossas ideias, compartilhamos e mostramos nossa produção  artística.

– Porque um site direcionado para publicar e divulgar produções  realizadas por mulheres?

Sou atriz e comecei a produzir por necessidade: tinha muita coisa que  queria falar, colocar em prática, mas não achava o espaço. Queria  falar das coisas invisíveis que me limitavam na arte. Os boicotes, os  medos, os desejos que se chocavam com a realidade. Muitas das coisas  tinham a ver com o fato de ser mulher. A necessidade de se colocar  além de uma cara ou corpo bonito, de trazer um discurso além do que se  coloca para as mulheres, de colocar a cara pra bater sem medo. Comecei  a ver que muitas das nossas referências são masculinas e as poucas  femininas sempre vêm acompanhada do nome do pai, do amante ou do irmão  da artista.  Fui trazendo a percepção para o meu ambiente e constatei  que apesar de conhecer inúmeras artistas/produtoras, poucas se  arriscavam. A maioria estudava muito, tinha muito conhecimento, mas  não ia para a prática. Muitas se perdiam no trabalho de outros  artistas. Certa vez fui fazer um laboratório em um ateliê de um  artista. Ele me recebeu e disse que não entendia as alunas, pois ele  as convidava para expor e participar de salões, mas elas desistiam.  Quando ele se afastou algumas destas alunas vieram falar comigo.  Pontuaram o quanto era difícil conciliar a arte com a família, já que  elas eram as responsáveis pela criação dos filhos, por exemplo. Uma  delas, mãe de adultos já, me disse “Eu estava no meio do projeto  quando minha filha teve problema no trabalho. Parei para ajudá-la a  cuidar dos meus netos”. Era esse invisível que eu sentia. E por isso  criei o Las Abuelitas: para essas mulheres poderem divulgar não só o  trabalho acabado, mas também seus processos criativos.Sem medo de se  exporem. Não há uma curadoria do que é bom ou não. Isso não existe. O  trabalho deve ser compartilhado até para aquela artista vê-lo de fora,  compartilhar nas suas redes e receber feedback. Poder criar conexões  que permitam a continuidade do trabalho, como atividade principal ou  não. Por esse motivo também o espaço é só para a divulgação de mulheres.

– Existe diferenças entre conteúdos produzidos “por mulheres” e  “sobre mulheres”?

Eu acho que não. Para mim tudo depende da experiência de quem escreve.  Não é porque uma mulher está escrevendo que necessariamente aquele  conteúdo será feminista. Aliás, tenho um pouco de receio disso, pois  não gosto do termo “olhar feminino”. O que é um “olhar feminino”? Para  mim é uma padrozinação. No Las Abuelitas recebo textos de homens que  escrevem sobre mulheres. Gosto quando isso acontece, pois é importante  os homens também terem essas referências femininas na arte. Tanto o  Teofilo, jornalista e escritor, quanto o Guto, produtor de teatro, me  procuraram para divulgar textos que eles fizeram sobre artistas que  admiram. Não vejo diferença com os textos das outras colaboradoras que  também trazem artistas que elas admiram. O que difere é a experiência.  O jornalista vai abordar o tema de uma forma diferente da atriz. É uma  diferença inevitável e muito bem vinda.

– Qual sua avaliação sobre feminismo no Brasil hoje?

Comecei a minha pesquisa sobre mulheres artistas em 2012. Naquela  época encontrei poucas pesquisas abordando o tema, inclusive quando  levei o assunto para a pós-graduação que fazia (gestão cultural no  Senac), fui mal interpretada por alguns professores. Tive sorte porque  uma professora em particular me incentivou a continuar.
De 2 anos para cá vejo que as discussões feministas vêm ganhando muito  mais espaço. É claro que o movimento das mulheres sempre existiu, mas  hoje tenho a sensação que ele se espalhou e se popularizou. Os homens  não estão entendendo e estão incomodados, nas redes sociais os grupos  de meninas só aumentam. O mercado começou a sacar o movimento e  abraçar algumas coisas. Claro, que com isso vem alguns exageros. Vejo  meninas julgando outras por conta de algum comportamento que não se  enquadra no movimento feminista. Faz parte, acho até que é inevitável.  Mas tenho olhado com muito otimismo o movimento feminista e me sinto  feliz por poder fazer parte dele.

– Qual sua visão sobre a mulher enquanto sujeito do discurso e  agente político?

Vejo essa dualidade em meu próprio corpo. Tem dias que me sinto frágil  e incapaz de ser responsável por coisas maiores, mas o que acontece na  realidade é que já estou nessa responsabilidade rs, e modéstia a  parte, me saindo muito bem! (risos). Para mim esta é a importância do  movimento feminista mostrar que nós mulheres somos agentes, que  estamos fazendo política nas pequenas coisas do dia a dia. Se as donas  de casa acharem que o mercadinho do bairro tá cobrando caro e pararem  de comprar lá, eles vão baixar o preço. Isso para mim é política! Mas  estamos acostumadas a achar que o que fazemos é menor, porque não é  tido como grandioso. Aprendemos assim e somos bombardeadas o tempo  todo pela mídia. Nas propagandas, novelas, etc somos frágeis e  precisamos constituir família para sermos reconhecidas. Nos  identificamos ai porque crescemos com esse aprendizado. Mas quando  desligamos a TV, colocamos uma casa para funcionar e, muitas vezes, um  escritório também. Dupla, tripla jornada! Acho que o discurso do que é  ser mulher e o que de fato é ser mulher ainda está dissociado. Mas,  como mencionei, ainda bem que vivemos num período em que o feminismo  está popular e pode trazer este questionamento todos os dias para nós.

– Fale um pouco sobre o nome do site “Las Abuelitas”

O nome veio literalmente de um sonho. Por algum tempo sonhei com  velhas. Era colocar a cabeça no travesseiro e elas apareciam em  ciranda no meu sonho. Em 2015, já com muita vontade de concretizar em  ação minha pesquisa, fiz uma viagem pela América do Sul e antes de  embarcar sonhei de novo. Desta vez estava num museu de mulheres, cada  uma com um tipo de representação. Nessas sincronicidades da vida, em  uma cidade da Bolívia, entrei num lugar que era exatamente isso.  Voltei de viagem e resolvi começar com um blog. Colocar o nome Las  Abuelitas, ou as Vovozinhas, em português, foi uma forma de homenagear  esse processo tão bonito que vivi comigo, por meio do meu  inconsciente. Coincidência ou não parei de sonhar com as velhas quando  inaugurei o blog!

Priscilla Leal