Entrevista com Monique Brasil

A série Mulheres Produzindo Conteúdo e Discursos é um projeto do site Palavra e Meia que consiste na realização de entrevistas com mulheres que produzem conteúdo e discursos em vários meios e através de várias formas: palavra escrita, palavra falada, ações, movimentos sociais, sites, blogs, páginas, jornais, canais de video, zines. Conheça o que as mulheres estão falando e produzindo!

A entrevista de hoje é com Monique Rosa Brasil. Monique acaba de lançar sua primeira dramaturgia (link para compra abaixo), além de compartilhar parte de sua produção literária em sua página na internet. Confira a entrevista!

– O que é ser escritora para você?

Ser escritora para mim é a única opção para não estar em silêncio. Eu escolhi e não escolhi escrever. Eu escolhi porque eu decidi não abrir mão dessa ferramenta de expressão humana, mas, não escolhi ao passo que eu não tinha outra forma de dizer o que eu queria dizer. Então é isso, quebrar o silêncio.

– Fale um pouco da sua trajetória enquanto escritora.

-Eu comecei a escrever antes de aprender pôr a letra no papel, Eu aprendi que existiam livros, que contavam histórias e aquilo parecia tão importante e grandioso para minha cabeça de menina, que eu pensei “eu quero fazer isso”, pegando os livros de cabeça para baixo, lendo as figuras. Eu via as pessoas que sabiam ler e imitava elas, fingia que eu estava lendo e devo ter  pensado “Eu posso fazer meu livro, meu gibi”. Porque criança é assim, ela vê as coisas antes de enxergar o problema nas coisas, é um olhar mais genuíno, apesar de menos complexo. Então eu comecei a fazer os meus livros, que eram várias folhas com palavras que eu não sabia ler, mas, copiava e fazia desenhos. Depois disso vem a desilusão da maturidade, você vai aprendendo o mundo e precisa aprender a ler os nãos escritos no mundo. Aí foi que veio o “isso é importante demais para mim, é difícil” Mas eu continuava escrevendo. Apesar das coisas irem gradativamente se tornando mais complexas e o olhar se tornando cada vez menos genuíno. Isso é o processo do aprendizado, você perde a verdade das coisas poucas que você conhece em troca de desvendar outras coisas sob uma ótica turva. Você sabe mais coisas, mas, sabe pior e sabe menos detalhes e as informações começam a ficar poluídas de meias verdades. O ápice disso para mim foi o fim da adolescência. Aí eu descobri que era impossível ser uma escritora. Continua sendo impossível. Mas eu continuo tentando. Ser escritora ainda é uma utopia, a minha favorita. As utopias são necessárias por isso eu vou morrer tentando fazer essa coisa impossível.

Impossível porque para eu ser uma escritora eu não dependo da minha vontade ou talento, mas do reconhecimento alheio e isso é materialmente difícil e em essência impossível de se obter. Eu nunca vou ter certeza que  o título (escritora) foi concedido de maneira genuína, por compaixão, politicagem ou pelas circunstâncias cooperarem. Escritora é um título e eu posso me auto intitular, mas, sem a aprovação de quem me lê eu nunca vou tê-lo obtido. E eu nunca vou saber se essa aprovação é uma mentira. Porque qualquer pessoa que se auto intitula é uma farsa. Mas mesmo assim eu vou continuar escrevendo. Por que? Porque eu quero. O que eu faço é escrever, se eu sou escritora ou não, vou continuar escrevendo.

Qual a diferença entre uma produção realizada por um homem e a realizada por uma mulher no campo da escrita?

– A diferença entre um homem e uma mulher escrevendo é que as mulheres, ainda que escrevam coisas prejudiciais a outras mulheres, elas estão fazendo uma coisa que não foi inicialmente pensada para elas. Ainda temos países que as mulheres não podem frequentar a escola. Mas pior que isso, é pensar que nos países que se julgam mais avançados e superiores as mulheres evadem da escola e da universidade, porque a vida ainda é centrada em gerar a prole. Uma mulher que exerça qualquer profissão vai sempre estar em desvantagem social enquanto o centro da nossa existência for gerar prole (e mesmo que você não tenha filhos é assim que as pessoas te enxergam, como uma incubadora). Às vezes até a necessidade de me alimentar atrapalha o meu processo de escrita, imagina ser mãe e escrever, você tem que ser inumana para conseguir segurar um bebê em um braço e digitar usando a mão do outro braço. O trabalho intelectual exige concentração e egoísmo, e as mulheres não podem ser egoístas. Isso não é uma questão da escrita em si, é uma questão geral mas que vai prejudicar as condições de uma mulher ser qualquer coisa, inclusive se ela quiser escrever. O processo criativo exige egoísmo, e as mulheres não podem ser egoístas, então para mim tudo que fazemos é bem melhor do que o que os homens fazem porque escrevemos sob pressão moral, no sentido de que não podemos escrever sobre qualquer coisa, ou coisas perversas, por exemplo. Por isso muitas mulheres estão no mercado da literatura falando de religião ou auto-ajuda, é o que a moral permite que elas falem sobre.

Como você caracteriza sua escrita?

-A minha escrita é extremamente egoísta. Eu não me importo com nada, nem com o resultado. Eu só me importo em escrever e curtir o processo de escrever, que é o que eu gosto. Eu gosto da atividade em si, não exatamente da reação das pessoas sobre o que eu escrevi. Ás vezes eu finjo que eu me importo, porque as mulheres precisam parecer se importar com a opinião dos outros para não serem arrogantes. Mas no fundo eu não dou a mínima para o que acham. A minha escrita também é muito mais solar que eu. Eu queria passar toda a obscuridade que eu tenho na cabeça para o papel, mas, ainda não consegui. Minha cabeça é uma caverna cheia de tragédias e traumas, e minha escrita está na porta da caverna ainda, não entrou lá dentro.

Qual a ideia da conta Monique Brasil no Medium?

-Eu tenho essa conta no Medium onde eu iria fazer um trabalho mais organizado. Eu escreveria crônicas sobre política e coisas polêmicas. Mas eu desisti, porque as pessoas que leem sobre isso andam muito chatas. Aí eu fui escrever uma peça de teatro, que não dá prestígio e não atrai atenção. Eu acho que eu quero morrer de fome, na verdade. Só pode ser isso. No processo do livro eu apenas usei o Medium para me desafogar do processo, nada mais. Existem textos bem íntimos lá. Eu escrevo tudo para mim mesma e deixo público porque gosto de me exibir mesmo.

Você acabou de lançar um livro, uma dramaturgia. Conte-nos um pouco sobre essa produção

– O livro com a peça foi tão espontâneo que eu não gostei do resultado técnico, mas, gostei muito do tom que eu dou para a história. Eu nunca tinha escrito teatro a sério. Eu leio muito dramaturgia, sempre fiz exercícios de tentar escrever teatro ou filmes, qualquer coisa que venha na minha cabeça. Um dia eu tinha uma outra história na minha cabeça e escrevi durante cinco dias sem parar. A ideia original era escrever uma peça sobre um ‘Gênesis” alternativo, sobre a origem do mundo e da vida, sob a ótica feminina. Mas eu viajei dentro da história e pensei “Daqui algumas centenas de anos o mundo vai acabar, por que eu não escrevo logo sobre o final?” Aí saiu a peça sobre o mundo depois do fim do mundo e surgiram os personagens antropomórficos porque eu pensei na evolução das espécies e diminui um pouco essa ideia e pensei “Não vai ter mais humanos, mas bichos que falam”. A peça nasceu assim.

Como é o território da escrita e difusão de dramaturgias em relação às mulheres escritoras?

– Sabe aquela história sobre ser impossível ser uma escritora por eu nunca saber se genuinamente estão me concedendo o título? Eu acho muito mais impossível ser uma dramaturga. A história das mulheres que escrevem para o teatro é completamente apagada e escondida, porque teatro já é algo muito elitizado e obscuro para o público em geral. As mulheres são apagadas da história, e a dramaturga nem na coxia do teatro entra. Então é escolher uma profissão onde se está escondida, ou exercer essa função, em um mundo onde não querem que você exista.

– Qual sua avaliação sobre feminismo no Brasil hoje?

– O feminismo está tomando um caminho que eu não gosto nem de pensar. Eu queria profundamente não ser feminista. Mas eu sou mulher e a minha vida é política. Estamos sendo massacradas pela falta de direcionamento e propósito. Tudo se tornou muito individual. Tudo se tornou consumo e quando você fala de mulheres sempre fomos produtos, agora o único espaço que tentava elevar-nos dessa posição está nos vendendo a preço de banana. A Playboy é feminista agora, e o Brasil é um grande consumidor de pornografia. A gente cresceu com figurino do considerado soft porn sendo apresentado no Xou da Xuxa. Os pais que assistiam as filhas de paquitas nas festinhas da escola, depois iam assistir pornochanchada onde viam mulheres com um visual bem parecido com o das crianças. Por isso o feminismo vender a comercialização de mulheres como algo positivo é uma bomba-relógio em um país onde até as meninas na tv eram ensinadas a ser um produto sexual através da estética. É uma tragédia que vai acontecendo ano após ano, e quando a palavra feminismo fizer com que o conceito de feminismo desapareça eu espero estar morta.

– Qual sua visão sobre a mulher enquanto sujeito do discurso e agente político?

As mulheres não acreditam que é positivo advogar pelas próprias mulheres enquanto classe. Nem mesmo as feministas acham isso importante. Então elas não conseguem passar de sujeito do discurso a gente político da mudança, porque o próprio discurso é infestado de superficialidade e de descrença na união da própria classe. É como você se dizer cristão e não acreditar que Jesus Cristo é o messias, falar mal do cristianismo e virar pastor. Faz algum sentido?

O que mais queira falar e que considere relevante

.-Eu só queria dizer para as mulheres escreverem sem moral alguma que as impeça de pôr no papel o que querem dizer. Sejam egoístas. Ainda que eu mesma considere um lixo o que você escreveu, continue escrevendo. Se gente como o Bukowski pode ser considerado um gênio, por que você não?Na verdade, não existem gênios.  Não existe técnica, existe comunicação. Se você conseguiu apresentar o seu ponto, se fazer entendida e/ou contar uma história você está produzindo literatura. Se você quiser vender um livro tente não nascer pobre. Porque talvez você tenha que se humilhar todos os dias pedindo que as pessoas olhem para o seu trabalho e isso é muito doloroso.

Monique Rosa Brasil, escritora.

A dramaturgia da autora está à venda em:

https://www.clubedeautores.com.br/book/225394–Nao_coube_na_minha_pele?topic=artescenicas#.WKYY1FUrLIU

Para conhecer mais dos escritos de Monique, acesse:

https://medium.com/@moniquerosabrasil