Entrevista com Michelle Lopes do Clarices e Marias

Entrevista com Michelle Lopes, jornalista e literata e coordenadora do site Clarices e Marias

https://claricesemarias.com/


– O que é o site Clarices e Marias?

Clarices e Marias é um sonho, sabe? É um espaço para falarmos sobre mulheres e sobre cultura. Clarices e Marias tem a intenção de apresentar um jornalismo cultural de qualidade, tendo como foco exclusivamente produções de mulheres nas artes (cinema, literatura, dança, etc.). É como criar um mundo ideal, onde homens e mulheres tem espaços e oportunidades iguais. Clarices e Marias quer colaborar exatamente com isso, dando oportunidade, espaço e voz às mulheres que produzem cultura.


– Porque um site direcionado para publicar conteúdo produzido por mulheres?

Se eu entrar agora nos grandes portais de cultura do Brasil, a maioria vai apresentar matérias sobre produções masculinas. E isso não significa que mulheres não estão produzindo cultura, dirigindo bons filmes, escrevendo bons livros. Significa apenas que os jornalistas e, principalmente, os leitores estão acostumados a ler e saber sobre homens. Ninguém para e pensa “nossa, mas e as mulheres?”. Se uma matéria falar sobre uma diretora, bacana! As pessoas vão ler e ok. Mas isso acontece uma vez ou outra e, geralmente, quando essa mulher já batalhou o bastante para chamar a atenção. Mas e as mulheres que ainda não são completamente famosas? E as produções que nós não ficamos sabendo e que, muitas vezes, estão acontecendo em nossa cidade?

Pensando nisso tudo, com uma angústia imensa e com uma esperança maior ainda, decidi criar o Clarices e Marias e dar oportunidade igual às mulheres. Neste site falo sobre mulheres que já estão conhecidas, mas também falo sobre iniciativas pequenas. Meu sonho é ver o Clarices e Marias como um portal sobre mulheres e cultura em geral, de todas as regiões do país. Talvez seja uma pretensão danada, mas se as matérias que publicarmos no site forem lidas por apenas mais uma pessoa, fazendo com que mais uma pessoa conheça essa ou aquela mulher que está fazendo um trabalho bacana, já vale a pena.


– Qual sua avaliação sobre feminismo no Brasil hoje?

Acho que o feminismo no Brasil tem crescido, principalmente com o apoio das redes sociais. É aquela coisa: todo mundo acha que as redes sociais não são capazes de propor discussões e mudanças, mas, muitas vezes o feminismo tem saído das redes, gerado mudanças reais. Isso é fantástico! O feminismo no Brasil, como em todo o mundo, é muito plural, mas está cada vez mais unido: uma força só com todas as suas particularidades. Acho que o caminho é esse.


– Qual sua visão sobre a mulher enquanto sujeito do discurso e agente político?

É muito triste pensar em todo o silêncio e em toda a inatividade que nós mulheres fomos submetidas ao longo dos anos. Ainda acontece, claro, mas cada vez mais a mulher toma consciência de sua própria ação, de si como uma mulher com fala, uma agente. E quanto mais mulheres conscientes disso, maior é a força da luta. Luta para que outras mulheres se libertem desse silenciamento e luta para que todas nós sejamos reconhecidas como tal.

– Existem diferenças entre conteúdos produzidos “por mulheres” e “sobre mulheres”?

Com certeza. Dar visibilidade a conteúdos produzidos por mulheres faz com que seus trabalhos, independentemente da temática que abordem, sejam vistos e comentados. Falar sobre mulheres, embora seja algo igualmente importante, pode ser feito por um homem, por exemplo, e no caso do Clarices e Marias, a intenção é dar visibilidade para o que mulheres estão falando, criando, produzindo. Uma mulher falando sobre mulheres é o que acontece no meu caso e às vezes, posso falar sobre mulheres que estão falando sobre outras mulheres, mas não é uma regra.


– Fale um pouco sobre o nome do site “Clarices e Marias”

Sou apaixonada pela obra de Clarice Lispector e queria usar, de uma maneira criativa, “Clarice” no nome de meu projeto. Conversando com uma amiga, ela me lembrou da música “O bêbado e o equilibrista”, criada por João Bosco e Aldir Blanc e interpretada por Elis Regina, que diz “Chora a nossa Pátria Mãe gentil, choram Marias e Clarices no solo do Brasil”. Independentemente da referência que estavam sendo feitas a esses nomes, achei que poderia ser lido como mulheres em geral, uma representação a todas. Inspirada por isso, decidi nomear o projeto como Clarices e Marias, sendo Clarices uma referência à escritora Clarice, representando todas as escritoras, e Marias sendo todas nós, pessoas comuns, de luta, que mesmo no anonimato buscam defender e divulgar aquilo o que acreditam.


– O que mais queira comentar e que considere relevante

O Clarices e Marias nasceu de uma grande vontade de exercer um bom jornalismo, além de um impulso feminista de fazer a diferença pelo menos para um círculo de amigos. Está sendo muito gratificante receber mensagens de pessoas que moram em outras regiões do Brasil e tiveram contato com meu site e também mensagens de homens que me disseram que não haviam reparado o quanto não falamos sobre produções culturais feitas por mulheres, que isso os deixou mais críticos. Está sendo uma experiência interessante!


Michelle Lopes é jornalista e literata. Formou-se em Jornalismo pela PUC-Campinas e em Estudos Literários pela Unicamp, curso que permitiu que passasse a se dedicar ao estudo da obra de Clarice Lispector.