Feminilização, patriarcado e violência

Reflexões sobre o processo de feminilização das mulheres, uma construção social que violenta mulheres

– “Mulheres lésbicas: distantes da feminilidade e da masculinidade” [texto] 11 de setembro de 2021

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Feminilidade é uma ferramenta utilizada por homens para dominar, explorar e violentar mulheres.  A feminilidade passa também a ser um contexto, uma expectativa e um território social. A masculinidade também é uma ferramenta de dominação e também um contexto, um território. Essas duas ferramentas são apresentadas concomitantemente a partir de uma relação de oposição. Em cada pólo ferramental são associadas características diferentes e opostas, ambas características humanas e passíveis de serem praticadas tanto por homens como mulheres, mas, cristalizadas em um ou outro pólo, sendo proibida a prática da característica de certo grupo pelo grupo oposto. Uma das regras  predominantes atualmente na maioria das sociedades para a relação entre estes dois grupos é que haja relacionamento sexual entre as pessoas dos grupos opostos e não haja relacionamento sexual entre as pessoas do mesmo grupo. A ideia da feminilidade coloca que mulheres devem se relacionar sexualmente com homens e a ideia da masculinidade, que homens devem se relacionar sexualmente com mulheres.A mulher lésbica, apenas pelo fato de ser lésbica, já está bastante distanciada da expectativa da feminilidade, pois, ela não se relaciona sexualmente com homens,  Este elemento quebra fortemente um dos pilares do patriarcado. Não se relacionar sexualmente com homens também significa que a mulher lésbica está mais distante dos homens e da ferramenta da masculinidade do que a mulher heterossexual. Temos então duas questões: lésbicas estão distantes do padrão de feminilidade, pois, não se relacionam sexualmente com homens; por não se relacionarem sexualmente com homens, estão mais distantes do cotidiano íntimo com estes, constroem espaços de afeto sem homens e logo, estão mais distantes da ferramenta da masculinidade nestes espaços. Logo, é de grande incoerência afirmar que lésbicas ou são masculinas ou são femininas. Masculino e feminino não são meras identidades individuais, são ferramentas de dominação de um sistema social coletivo de existência. Lésbicas são uma possibilidade de ruptura do sistema patriarcal. Nossas existências geram conceitos, inclusive. Não seremos conceituadas pelo patriarcado.

“Lésbicas masculinizadas”, uma ofensa misógina e heteronormativa” [texto] 10 de setembro de 2021

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A ofensa do termo “mulher masculinizada” se aprofunda no termo “mulher lésbica masculinizada”. Na publicação anterior abordei o sequestro da assertividade em mulheres e a apropriação enquanto posse exclusiva desta característica pelos homens. Sem o direito reconhecido socialmente de sermos assertivas, quando o somos, nos acusam de estar roubando uma característica exclusiva dos homens e nos taxam de “masculinas”. A mulher lésbica, apenas por ser lésbica, já é imediatamente vista enquanto desviante. Frequentemente, apenas pelo fato de ser lésbica, ou seja, de se relacionar sexualmente e afetivamente com outras mulheres, é caracterizada enquanto alguém que gostaria ou que estaria tentando ser um homem. Neste caso, a lógica heteronormativa organiza a interpretação e não reconhece um casal de mulheres, mas, sim, apenas casais heterossexuais. Nesse sentido, em um casal lésbico, se coloca que uma das mulheres estaria desempenhando o papel de um homem. Ou ainda, que ambas estariam querendo ser homens, afinal, apenas homens poderiam ocupar o território de desejar sexualmente mulheres. Não, não queremos ser homens. Ser lésbica, inclusive, é viver o território afetivo onde homens sequer são uma questão. Aprofundando a caracterização ofensiva e na tentativa de entender a realidade que classificam como artificial através da formatação em um modelo já conhecido e que consideram natural, muitas pessoas classificam a mulher lésbica assertiva e que não corresponde às expectativas da feminilidade, como “masculinizada”. Uma mulher heterossexual assertiva e uma mulher lésbica assertiva podem adotar comportamentos e estéticas semelhantes e ter interesses parecidos. Ambas podem ser caracterizadas de “masculinas”. O agravante em denominar uma mulher lésbica de masculina está na tentativa de formatá-la em um casal heterossexual, quando esta lésbica encontra-se em um relacionamento, ou no caso da mulher lésbica solteira, o agravante se encontra no ódio estimulado socialmente contra as lésbicas, a misoginia e a lesbofobia. Perante a raiva que sentem frente a mulher lésbica assertiva, que duplamente foge às expectativas do patriarcado – que seja não assertiva e que se relacione sexualmente com homens – a classificam como “masculina”. Na tentativa de ofendê-la, afirmam que ela não é mulher, já que, esperam que mulheres não sejam lésbicas e não sejam assertivas. O masculino violenta mulheres. Lésbicas nunca serão masculinizadas ou masculinas, pois, o masculino pertence ao grupo dos homens, o grupo que violenta. Não ofendam lésbicas.

– Mulheres não são masculinas. Não ofendam mulheres. [texto] 09 de setembro de 2021

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Diariamente o patriarcado sequestra a assertividade de mulheres: impede, desloca e renomeia. Primeiro, tenta constantemente impedir o desenvolvimento da assertividade das meninas e mulheres. Depois, desloca a possibilidade do desenvolvimento da assertividade do grupo das mulheres e a permite florescer unicamente no campo dos homens e, logo, da masculinidade. Então, como tática final de dominação, renomeia o mundo das mulheres, como o grupo não assertivo. Por fim, mulheres que questionam esse sistema e desenvolvem a assertividade, são classificadas como pertencendo simbolicamente ao grupo oposto, ao grupo dos dos homens. Se diz que mulheres assertivas são “masculinas” ou “masculinizadas”, pois, os homens se apropriaram de tal forma da assertividade que clamam possuí-la de forma exclusiva, o que é um grande absurdo. Esse processo ocorre em inúmeras culturas e territórios. Homens se impondo sobre as mulheres através de ações e ideias. No campo do discurso, se reservam o direito de nomear, classificar e organizar mulheres em categorias geradas na lógica patriarcal de violência. Quando somos assertivas homens nos classificam como sendo homens ou querendo ser homens. A lógica patriarcal de dominação resulta também em mulheres que não reconhecem a assertividade como fazendo parte da personalidade de mulheres, entendo-a como artificial em mulheres, como mulheres fugindo à sua natureza.
O sequestro da assertividade de mulheres é um crime contra a humanidade. Constitui também grande ofensa a classificação de mulheres assertivas como sendo masculinas. A masculinidade é uma das ferramentas de dominação do patriarcado, dominação de [ou contra] mulheres. Mulheres são violentadas pelo masculino. Mulheres assertivas não são masculinas, são mulheres assertivas.

Sobre liberdade e coerção à retirada dos pelos corporais de mulheres. [texto] 02 de setembro de 2021

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Há liberdade quando há opções a escolher; acesso à informação que possibilite a reflexão e tomada de decisão; contexto que apoia decisões; possibilidade de manifestar discordância sem que haja violência posterior; e condições materiais e sociais para manter ou para desistir de determinada opção. Liberdade de escolha é uma questão coletiva.

O abandono afetivo de mulheres lésbicas não feminilizadas por pessoas heterossexuais. [texto] 22 de agosto de 2021

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Em 2015 adotei o termo “feminilização”, “mulheres não feminilizadas” e “lésbicas não feminilizadas”. Recentemente venho repensando. Todas as mulheres são feminilizadas, pois, submetidas ao processo de feminilização, estratégia de dominação do patriarcado. É preciso propor palavras que expressem com exatidão. Nesse sentido, “mulheres assertivas” talvez seja mais adequado.
Enquanto isso, vamos ao que temos.
Mulheres não feminilizadas, em especial mulheres lésbicas não feminilizadas questionam muitas regras que o patriarcado impõe às mulheres.
A postura assertiva expressa o que são e o que querem ser, em termos de comportamento, estética e posicionamento no mundo. Muitas vezes, ser assertiva, significa reagir a violências de forma incisiva e imediata. Discordar de forma explícita. Falar de forma direta. Não falar por trás, argumentar direto com alguém de quem discorda ou com quem quer iniciar um novo projeto. Não “enrolar” ou “fazer jogos psicológicos”. Falar sobre assuntos que por vezes se prefere evitar. Fazer denúncias públicas. Propor soluções. Demonstrar fragilidade quando necessário, acolher pessoas próximas. É uma postura que intervém no coletivo.
Em termos de estética, muitas vezes se questiona as violências corporais patriarcais, como a obrigatoriedade de remoção dos pelos, de pintura facial, de utilizar acessórios, roupas com tecido frágil, sapatos que dificultam a mobilidade.
São muitos fatores.
Muitas vezes, pessoas heterossexuais cultivam um ódio a essas mulheres. Em muitos casos, o ódio se expressa em indiferença e abandono psicológico. Este se intensifica quando a mulher é identificada como lésbica ou quando se assume. Em muitos casos (mas não todos) a “melhor amiga”, irmã, mãe, pai, amigo próximo, grupo de trabalho, círculo próximo de amizades se transformam em pessoas indiferentes, quase estranhos frente à lésbica assertiva. Abandonam pois desumanizam, retiram a dignidade na relação social, tentam anular sua existência coletiva, fingem que não existe.
Pois bem, existimos.
A violência psicológica será explicitada.
Continuaremos a propor laços de acolhimento e de não violência.

Feminilização, assertividade e relações sociais. [fala] 10 de agosto de 2021

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– Homens não suportam mulheres assertivas [texto]. 05 de agosto de 2021

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“Homens não suportam mulheres assertivas. Mulheres, por vezes, não suportam mulheres assertivas. Os homens, em especial, se sentem donos dos espaços coletivos e não admitem mulheres que se colocam de forma firme, assertiva e propositiva nesses espaços. Não suportam mulheres que observam atentamente o espaços e pessoas ao seu redor. Não suportam mulheres que questionam com o olhar e postura, o olhar desses mesmos homens que as objetificam sexualmente. Não suportam mulheres que pisam firme com um sapato confortável, que tem o cabelo curto ou raspado – mais prático – que vestem roupas largas e confortáveis para se movimentar. A postura corporal assertiva expressa presença e atenção, um olhar sério, concentrado, resultado de decisões pensadas. Homens a interpretam como um ataque ao que pensam ser seu território privado – o território público das ruas, praças, avenidas. Se incomodam, demostram inquietude. Não suportam perceber mulheres como seres donos de si, pessoas insubmissas, que não expressam fragilidade e necessidade de algum homem sempre as ajudando, lhes dando informações ou orientações. Homens não suportam mulheres que dentre outros tipos de manifestações discursivas, se expressam no imperativo quando necessário. Que não riem a todo momento, não pedem desculpas sem necessidade, não agem de forma incerta. Pelo contrário, homens se sentem à vontade quando as mulheres ao seu redor expressam fraqueza, disponibilidade, incerteza e desatenção. Se sentem à vontade quando observam fixamente as partes íntimas de todas as mulheres e meninas que passam à sua frente. E se sentem à vontade quando outros homens fazem o mesmo. É a cultura do estupro se manifestando no olhar e a cultura da dominação política se manifestando no seu incômodo em perceber mulheres assertivas nos espaços coletivos.”

– As violências originárias do patriarcado [fala] 05 de junho de 2021

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-Lésbicas não são homens [texto] 08 de outubro de 2019

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“Lésbicas não são homens. Mulheres que rejeitam os padrões de feminilidade não são homens. Mulheres que se recusam a se depilar, usar sapatos que machucam, roupas que impedem a respiração, mulheres que expressam sua opinião, são assertivas, falam alto de vez em quando, são confiantes, propõe soluções nos seus projetos coletivos, não são homens. Mulheres que traçam estratégias no trabalho, que se recusam a sorrir sempre, que são sérias e ao mesmo tempo são alegres quando realmente estão, mulheres que não pintam o rosto não são homens. Mulheres que não usam acessórios como colares e brincos e pulseiras, não não homens. Meninas que usam roupas confortáveis como bermudas e camisetas, que gostam de esportes, que gostam de videogame, que gostam de brincar de luta, não são meninos. Meninas e mulheres que se interessam por ciência e resolver problemas e desafios, não são meninos ou homens. Eu não sou um homem. Sou uma mulher. Parem de classificar lésbicas como homens ou mulheres que fogem ao padrão sexista como homens. Parem de ser lesbofóbicos. Parem de ser misóginos. Bom dia!”

-Docilização de meninas. [texto] 14 de janeiro de 2019

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“Um dos pilares do patriarcado é a docilizaçao de meninas desde muito cedo. Ensinemos as meninas que elas podem e devem ser assertivas, que elas não precisam arrancar pelos corporais quando entram na puberdade. Não comprem sapatos que apertam os pezinhos das meninas. A maioria das sapatilhas diminue o espaço de movimentação dos dedos e machucam. Comprem bermudas, shorts para que elas se sintam livres para sentar de forma confortavel e que consigam correr, pular, movimentar. Não constranjam meninas que gritam e que dizem não. E ensinem meninos a gritar menos, a aceitar que não é não. Não naturalizem o comportamento impositivo de meninos. Por uma sociedade sem violência contra as meninas.”

– Mulheres, politiquem. [texto] 27 de julho de 2016

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“Nunca se furtem em indignar-se com a realidade, seja ela qual for. Não se furtem em questionar, refletir, falar em voz alta, criticar, ouvir, discordar. O consenso imposto pelo silêncio e pelo medo de se colocar é um falso consenso e pior, baseado na violência. Silenciar é violentar. Não, você não é louca, você não é chata ou preocupada demais por se colocar. NÃO acredite nisso. Também não faça outras mulheres acreditarem que elas são chatas e impertinentes ao se colocarem, pelo contrário, incentive outra a mulher a discordar! Incentive outra mulher a se colocar publicamente, ouça suas companheiras. Tiremos essa poeira, essa sim, bem chata e incoveniente que sufoca nossos corpos e opinioes, poeira histórica, poeira patriarcal que nos impede de respirar nos últimos 6 mil anos. Fale, grite se necessário, escreva, torne pública suas opiniões, argumente. Reconheça a consistência de seu próprio pensamento.”

– Feminilidade e o não-posicionamento político. [texto] 18 de novembro de 2015

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“Uma das construções violentas da feminilidade e sua associação necessária com as mulheres é o fato de que as mesmas não conseguem, não querem, ou mesmo tem aversão a se posicionar politicamente, a dar sua opinião, perguntar, questionar, indagar o outro. Uma mulher que se posiciona com firmeza ainda está associado a agressividade, já que se espera que uma mulher seja sempre dócil. Pode se posicionar, mas tem que ser rindo, sorrindo ou pedindo desculpas. Durante toda sua vida a mulher vai perdendo autonomia, se sentindo culpada quando se posiciona frente a outra mulheres, quando pergunta, indaga, questiona, defende um ponto de vista. Indagar a outra ainda é visto com desconfiança, como se se quebrasse o contrato de docilidade entre as mulheres. Acusa-se aquela que se posiciona como arrogante, autoritária. Em todo esse processo, perde-se a ação política, projeta-se para dentro, criam-se intrigas e desconexão com as outras. A mulher vai pouco a pouco minando sua autonomia e a autonomia de cooperação entre mulheres.”

– Corporalidade e espaços coletivos [texto] 01 de agosto de 2015

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“Se uma mulher não for meiga com você não significa que ela está sendo grossa, significa que ela está sendo adulta. A vida adulta exige firmeza, seriedade, concentração. Parem de exigir que as mulheres sejam meigas, gentis, que fiquem rindo toda hora ao falar de assuntos sérios, a se desculpar quando manifestam discordância com sua opinião. E por último, se uma mulher não quiser te cumprimentar com beijo no rosto, aceite! O aperto de mão é um cumprimento formal não apenas para homens. Não obrigue uma intimidade que nem toda mulher quer.”