Reedukar é a chave

Reedukar é a chave

Formiga

Faz parte da missão
denunciar a opressão
semente patriarkal
brotando destruição do nosso ideal
akorda menina
isso é rivalidade feminina
vou repetir a mesma ladainha
erva daninha
redução de danos
tá nos meus planos
o privilégio ke faz kalar
as manas ke se sentiram intimidar
ora é uma porra ora é risível
kem tem menos é mais invisível
intelecto ki zomba
não não num é kizomba
antes fosse
se tornou amargo um doce
as mágoas vem pra fora
em forma
de lágrima
e fúria
rajadas de injúria
sabedoria é prátika da utopia
cheia de palavra e ação vazia
não adianta mudar de país
não adianta se eskonder
se a raiz
du problema tá em você
sangue ferve
kabeça verve
vontade de sumir
vontade de morrer
mas tenho ke assumir
mas tenho ke korrer
por mim
pelas irmã
é assim assim ke é
agente é u clã
kem pode mais
tem ke socializar kom as demais
ke não tiveram acesso
du kontrário é retrocesso
ouça
reparação histórika
as preta não vai lavar sua louça
lembra kem teve vivência diaspórika
as pobre vai falar mais
dos seus sonhos e ideiais
não vem pregar teoria
komo se fosse uma bíblia
nem todo mundo sabe ler inglês
mal falamos u português
mudar u modo de falar
pra di verdade somar
reedukação é a chave
ke abre essas grade
apoya mutua e sororidade
tem ke fazer parte
do nosso kotidiano
todo dia um pouko pratikando
a revolução
entendeu sapatão
se for mesmo das nossas
guerreira
naõ vira as kostas
mana verdadeira
tem ke olhar pra trás
e ver u legado dus ancestrais
uma tátika
de preservação
da nossa koletividade sapatão
na Áfrika
kuando uma pessoa
dá mankada
na boa
ela é levada
na aldeia pro centro
pra olhar pra dentro
de si
e ai
toda komunidade
sem maldade
meu
lembra du brilho
ke ela emitiu kuando nasceu
pra kaminhar nu trilho
lição de vida
das antiga
já reparou
ke na tv em programa de humor
preta, pobre, nordestina
homem, mulher e menina
é motivo de piada
minha gente sendo ridikularizada
orra
essa zorra
põe ator embrankecido de black face
rindo do amargor
da vida du povo excluído
vai vendo a cena
kuando eu era pekena
meu tio falava
mal de baiano
desprezava
todo ke vinha desse kanto
makacheira, farinha rapadura
e todos nordestino
ke leva vida dura
por ironia du destino
pra você vê
meu tio é descendente da terra du dendê
aki em São Paulo
prekonceito kontra nortista é mato
skinhead desgraçado
esse nazi anda armado
de faka, soko inglês, tako de beiseboll, butterfly
e noiz vai
delatar
as atrocidade
ke us pilantra aprontar
esteriótopo da komédia
pra distrair a klasse média
e oprimir u povão
num dá mais não
geraçaõ de lukro pros negócios
dos patriarkas, xenofóbikos
racistas e elitistas
são prátikas facistas
de kontrole kapitalista
minha função é kontra kultura
ritmo e literatura
preservar a memória
rekontar a história
du meu povo milenar
Ikamiabas, Amazonas e Yás
kombater us atake
na rima nu atabake
aprender kom um gunga
no kompasso da zabumba
bumba bumba bumba meu boi
marakatu num foi
fikou na veia
us bombo incendeia
a pisadadu kôko
é frenétiko é loko
minha kara
samba reggae uma arma
markou u koração
faço a oração
a labrys é meu patuá
pras maldade nõa me pegá
indigená é radikal
afro punk antikapital
foi u tambor foi u tambor
foi u tambor
ke chamou
meu amor

FORMIGA sapatão do extremo sul da zona sul de São Paulo faz da rima arma e eskudo antipatriarkal ginga nas rodas da vida aprendendo kom a pedagogia preta ke o koração é um tambor. Participação poétika nas koletânia de hip hop Perifeminas 2013, koletânia erótika negra Além dos Kuartos 2015 e kolunista da revista Fala Guerreira 2015 e 2016. Trampos poétikos solo: o zines Aversão Poétika 1 ao 6 de 2012 a 2015, Eu-Lésbika de 2014 e o Seis Sentidos de 2016.

Como citar esse texto:

Formiga. Reedukar é a chave. Palavra e Meia, Abr. 2016. Convidadas. Disponível em: <http://www.palavraemeia.com/convidadas/reedukar-e-a-chave/> Acesso em: [inserir data].