Linha de hoje

LINHA DE HOJE

Cristina Beskow

15 de abril de 2016

Lá do alto do busão

vejo a cidade passar

como vitrine móvel

eu parada

atrás da janela

vejo a todos

ninguém me vê

estado preferido

de uma voyeur

Aqui dentro

sem novidades

corpos pendurados

olhos buscando algo

passagem a 3,80

aquele assalto

nada de aumento

pro pobre do cobrador

sem troco e revoltado

Por sorte

consegui sentar

quem tá de pé

já sabe como

inferno é

Do lado de fora

mundo de concreto

corre-corre danado

arranha-céu riscando

nuvem cinza de fumaça

A cidade fede

exploração

machismo

racismo

rio tietê

Dentro do bar

Garçonete braveja

os quinze minutos

para almoçar

Mas existe

amor em SP

há luta

de classes

Domingo vai ter jogo

na cidade de Brasília

até muro das torcidas

bolão do impitimam

um monte de bancada

verde/amarela, vermelha

da cruz, do boi, da arma

dizem que só por deus

(não) vai ter golpe

Do alto do ônibus

tento ver futuro

para mim

para nós

para o cobrador

sem aumento

para a garçonete

sem férias

para o transeunte

sem horizonte.

Cristina Beskow é jornalista (por formação), pesquisadora de cinema e realizadora de audiovisual. Nas horas vagas, fotografa, pinta e escreve poemas.

 

Como citar esse texto:

Beskow, Cristina. Linha de hoje. Palavra e Meia, Abr. 2016. Convidadas. Disponível em: <http://www.palavraemeia.com/convidadas/linha-de-hoje/> Acesso em: [inserir data].